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A doença mental (o eu distorcido)

*

Queremos todos chegar a um nível de paz interior de tal forma elevado, que o sorriso seja a nossa expressão mais utilizada. E todos, com maior ou menor esforço, poderemos, em princípio, lá chegar.

Mas alguns de nós têm dificuldades acrescidas: uma disfunção no nosso cérebro e no nosso equilíbrio que acaba por nos dificultar esse objectivo. Falo, como já se previa, do campo das doenças mentais.

Gosto de comparar com as doenças 'apenas' físicas, porque a estas, com maior ou menor resistência, o paciente acaba por reconhecer, maioritariamente, que vale a pena fazer um sacrifício e aceitar o tratamento, as terapias, a medicação. Há quase um não estigma. Quase. Ou, antes, um estigma positivo: há alternativas alimentares para os diabéticos, para quem tem o colesterol alto, quem parte uma perna no liceu tem direito a ter o gesso assinado e cheio de dedicatórias, quem tem cancro - hoje em dia - é considerado um herói na luta contra o vilão. E tudo isto está certo.

Em contrapartida, será correcto recriminarmos a presença de um esquizofrénico no nosso grupo de amigos? Apontarmos os comportamentos de um bipolar? Desvalorizarmos alguém com uma depressão profunda? Recusarmos a um borderline o seu direito de se inserir na sociedade, como um de nós? Lidamos bem com um ente querido que adquiriu demência?

A sociedade é hipócrita em relação a isto, porque enquanto nos diz que todos somos iguais e temos as mesmas oportunidades e direitos, no dia-a-dia e no terreno, a coisa não é bem assim. O primeiro entrave é mesmo o sistema de saúde (público), entupido e a rebentar pelas costuras. O privado, bem, o privado não é para qualquer bolsa.

Existem apoios sociais? Claro que existem! São é manifestamente insuficientes: desde a medicação, ao direito à habitação, às consultas, passando pela inserção no mundo laboral... Alguém com uma doença ou perturbação mental é exactamente igual a qualquer um de nós, mas com estas barreiras quase sempre associadas. É como se o seu sucesso tivesse sido boicotado à partida!

Algo que é comum em muitas doenças do foro psiquiátrico é a depressão. Na minha opinião, um dos grandes assassinos silenciosos. É preciso combater isto, é preciso salvar vidas! Perceber melhor, investigar ainda mais esta problemática, criar e testar hipóteses, encontrar soluções eficazes... 

Não vou abordar cada doença e transtorno aqui, pois este é um mundo sem fim; quis apenas trazer um pequeno lamiré, para abrir a consciência de alguns de vós que possam não estar alerta para esta realidade. É necessária uma mudança e ela está em andamento. Mas a primeira das mudanças está na nossa cabeça: VAMOS ACABAR COM O ESTIGMA?


* fotografia de Margarida Fernandes

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