Numa época prolifera de temas, em que tudo o que vem, eu absorvo e me permite maior ou menor visão crítica, talvez seja bom começar pelo princípio.
Já diz Khalil Gibran, sabiamente através de Al Mustafá, que uma coisa não existe sem a outra; no caso mais concreto, a alegria e a tristeza - é necessário uma partir para a outra surgir, num ciclo que acaba sendo eterno (acho que é mais ou menos isto). É o princípio geral dos opostos, o de que uma coisa não pode existir sem o seu contrário.
Pois muito bem, também a vida não existe sem a morte!... É uma observação fria, calculista e mórbida até. Mas é tão verdadeira como o estarmos todos aqui e existirmos nesta mais ou menos breve passagem.
O que agora me surge questionar é: porque nos alegramos tanto quando um bebé nasce e nos entristecemos até à alma quando alguém morre, se nascer é nascer para a dor, para um mundo cada vez mais sofrido e mais pobre de condições e morrer é partir desta angústia, não necessariamente deixar de ser, mas sair deste plano, deixando para trás a memória de como se escolheu existir na mente dos outros? Acaso quem morre deixa de ser filho de alguém? Pai ou mãe, irmão, sogro, avó, tio, tia, neto, sobrinha ou cunhado? Deixa de ter sido compadre, vizinho, amigo? Deixa de ter existido, é para apagar da nossa mente?!
Mas não, continuamos a preferir teimosamente uma tela em branco. Em detrimento de telas já coloridas pelas tristezas e alegrias de quem passou por elas e deixou a vida dos outros mais rica.
Não digo que uma atitude é a correcta e a outra é a errada (embora o princípio geral dos opostos possa dizê-lo), apenas me proponho a reflectir convosco sobre uma outra perspectiva. Nem que seja só por um segundo. Talvez isso nos alivie a dor de termos testemunhado a partida de alguém que nos era querido. Ainda que seja só por um instante.
Para quem se lembra das aulas de Filosofia no liceu, as coisas, para existirem num plano concreto, palpável, têm de existir primariamente no campo das ideias. A vida existe porque existe primeiro a ideia de vida, a palavra que a circunscreve. Idem para a morte. E para tudo o resto. Agora, para mim, condição sine qua non é a de que tudo o que existiu, existe ainda. Primeiro, porque escrevo e me dou à escrita, acredito que o espírito possa ser algo intemporal. Há algo que atravessa * e que é comum a todos, que é maior do que todos e cada um. Um escritor, um escultor, um pintor, um arquitecto, um cirurgião, não são maiores do que a sua arte, do que o seu ofício, do que a sua mensagem.
Também uma pessoa dita 'comum' não é maior do que aquilo que nos deixa e é por isso que acho injusto que deleguemos para um plano menor quem já partiu 'deste mundo'. Quem contribuiu com a sua riqueza ou a sua pobreza para outros, hoje, podermos ser mais, saber mais e, porque não, ter mais? Sendo que o ser é o maior atributo de quem já nasceu ou já existe mesmo sem ter nascido ainda e o maior valor que temos é o culto do ser (animal, vegetal, humano), podemos e devemos olhar sob uma outra perspectiva para as 'coisas' que são e que deixam de ser, porque já foram e um dia serão outra coisa diferente.
Podemos e devemos encarar a morte nos olhos e proferir a frase corajosa: 'Não tenho medo de ti!'
* Platão, Beauvoir, Sócrates, Shakespeare, Saramago, Sofia, Camões, Meireles, Pessoa, Austen, Sartre,Woolf, Assis, Amado, Lispector, Drummond, Christie, Hemingway, Miller (and so on and so on)
Já diz Khalil Gibran, sabiamente através de Al Mustafá, que uma coisa não existe sem a outra; no caso mais concreto, a alegria e a tristeza - é necessário uma partir para a outra surgir, num ciclo que acaba sendo eterno (acho que é mais ou menos isto). É o princípio geral dos opostos, o de que uma coisa não pode existir sem o seu contrário.
Pois muito bem, também a vida não existe sem a morte!... É uma observação fria, calculista e mórbida até. Mas é tão verdadeira como o estarmos todos aqui e existirmos nesta mais ou menos breve passagem.
O que agora me surge questionar é: porque nos alegramos tanto quando um bebé nasce e nos entristecemos até à alma quando alguém morre, se nascer é nascer para a dor, para um mundo cada vez mais sofrido e mais pobre de condições e morrer é partir desta angústia, não necessariamente deixar de ser, mas sair deste plano, deixando para trás a memória de como se escolheu existir na mente dos outros? Acaso quem morre deixa de ser filho de alguém? Pai ou mãe, irmão, sogro, avó, tio, tia, neto, sobrinha ou cunhado? Deixa de ter sido compadre, vizinho, amigo? Deixa de ter existido, é para apagar da nossa mente?!
Mas não, continuamos a preferir teimosamente uma tela em branco. Em detrimento de telas já coloridas pelas tristezas e alegrias de quem passou por elas e deixou a vida dos outros mais rica.
Não digo que uma atitude é a correcta e a outra é a errada (embora o princípio geral dos opostos possa dizê-lo), apenas me proponho a reflectir convosco sobre uma outra perspectiva. Nem que seja só por um segundo. Talvez isso nos alivie a dor de termos testemunhado a partida de alguém que nos era querido. Ainda que seja só por um instante.
Para quem se lembra das aulas de Filosofia no liceu, as coisas, para existirem num plano concreto, palpável, têm de existir primariamente no campo das ideias. A vida existe porque existe primeiro a ideia de vida, a palavra que a circunscreve. Idem para a morte. E para tudo o resto. Agora, para mim, condição sine qua non é a de que tudo o que existiu, existe ainda. Primeiro, porque escrevo e me dou à escrita, acredito que o espírito possa ser algo intemporal. Há algo que atravessa * e que é comum a todos, que é maior do que todos e cada um. Um escritor, um escultor, um pintor, um arquitecto, um cirurgião, não são maiores do que a sua arte, do que o seu ofício, do que a sua mensagem.
Também uma pessoa dita 'comum' não é maior do que aquilo que nos deixa e é por isso que acho injusto que deleguemos para um plano menor quem já partiu 'deste mundo'. Quem contribuiu com a sua riqueza ou a sua pobreza para outros, hoje, podermos ser mais, saber mais e, porque não, ter mais? Sendo que o ser é o maior atributo de quem já nasceu ou já existe mesmo sem ter nascido ainda e o maior valor que temos é o culto do ser (animal, vegetal, humano), podemos e devemos olhar sob uma outra perspectiva para as 'coisas' que são e que deixam de ser, porque já foram e um dia serão outra coisa diferente.
Podemos e devemos encarar a morte nos olhos e proferir a frase corajosa: 'Não tenho medo de ti!'
* Platão, Beauvoir, Sócrates, Shakespeare, Saramago, Sofia, Camões, Meireles, Pessoa, Austen, Sartre,Woolf, Assis, Amado, Lispector, Drummond, Christie, Hemingway, Miller (and so on and so on)
Querida Lu...gostei muito...a morte faz parte da vida(!) e, para mim que acredito na eternidade e em Deus por vezes até, um pouco " desejada"! Não por gostar de sofrer ou de fugir mas porque sei que há outra vida...VIDA! Continua a escrever o que te vai na alma...vou estar cá para te ler!( talvez,a dado momento,um pouco trabalhosa,a leitura!) beijinho,Bé
ResponderEliminarOlá, Bé, bem-vinda! Sim, concordo que a certa altura posso perder algum leitor, mas a ideia é agarrar quem quer mesmo cá estar. Partilhar o que temos cá dentro não pode ser apenas intuitivo. Logo, ler também deve fazer-nos questionar o porquê do que lá está gravado (cada palavra pode ter uma importância escondida, cada vírgula, cada acento)... Mas sim, acredito que haverá posts mais leves, outros menos!
EliminarFico contente de me teres vindo fazer companhia e sim, a morte tem o seu quê de belo quando se acredita numa vida melhor após a mesma! Beijinhos
Olá Lu, curiosa e pertinente a forma de encarar o "nascer para a dor...partir da angústia" um mundo sofrido é a descrição. E se escolhemos previamente a vida que queremos ter? Se fizemos uma qualquer espécie de trato, em que decidimos o que queremos aprender neste plano? E se na realidade a morte não existe?...São muitos "Ses"...mas na verdade, a morte é apenas uma mudança de patamar, uma mudança de plano, uma nova forma; a Energia é a tua Essência, a Tua Alma, que se mantém num corpo enquanto nesta dimensão, e que volta a "Casa" aquando da morte física na forma original, dando assim seguimento a uma nova vida, a um novo ciclo...porque na realidade, a Alma, essa nunca morre. Margarida Fernandes
EliminarMinha querida Flor, muito me apraz e muito me trouxe este nosso encontro inesperado na vida. E muito me alegra ter-te aqui presente e futuramente.
EliminarDescreves a vida e a morte com uma poesia e uma certeza mais pujantes do que a minha própria verdade. Vejo-te. E penso que consigo vislumbrar essa morte tão insignificante para a dor que lhe imprimimos e tão potente perante a viagem da nossa alma ao longo dos tempos e dos universos (planos).
Só quem já passou pelo que tu passaste e eu passei - sim, também eu - 'vê' a morte de frente, sabendo que ela nada pode e, no entanto, tudo transforma numa vida 'após a morte'...
Curioso esse teu pensar de que escolhemos o que vimos cá fazer... Escolhemos sofrer? Com que propósito? É o evoluir da alma tão mais importante do que a dor que dilacera corpo e espírito? Porque... É possível escolhermos só alegrias? E, fazer isso, dar-nos-ia isso um bilhete de passagem para um plano superior a este? Ou prenderia a nossa alma até que ela se tornasse verdadeira aprendiz?
Gosto muito das questões que colocas. E da forma directa como o fazes. Apetece-me continuar este diálogo. Muito.
Muito, muito obrigada pela honra.
Sim Lu, escolhemos sofrer, da mesma forma que também escolhemos ser felizes.
EliminarTudo é uma lição, uma aprendizagem, e a nossa Alma aprende com o sofrimento com a angústia e com a dor...
Já reparaste que o Universo nos coloca vezes sem conta as mesmas situações?
De cada vez que precisas aprender algo é-te colocada uma situação, se não aprendes à primeira, isso vai repetir-se ciclicamente até que percebas que estás no caminho ao lado...(e vai sendo cada vez com mais intensidade-digamos assim); daí o sofrimento e o porquê das coisas que nos acontecem, na realidade todas têm um propósito, ensinar-te a Elevar a tua Alma a um outro patamar, a um outro Nível...a nossa "Essência", a nossa "Casa"
Se tiveste uma vida de Princesa, tens apenas conhecimento da realeza, mas não da realidade e a tua Alma não evolui, logo a tua Evolução depende e carece de experiências para Crescer, para expandir os horizontes.
E como fazes isso? - Pondo o pé no chão para caminhar...hoje cruzas-te com uma Alma, amanhã com outra
Aprendemos, Ensinamos, e é desta partilha de experiências que resulta a Aprendizagem.
Já pensaste, quando nos cruzamos com alguém que pensamos conhecer o rosto de algum lugar, de onde será, ou porque temos esta "impressão"?
Na verdade subimos em Tribo, e descemos em Tribo - é daí que nos conhecemos.
Por vezes a escolha de experiência que vamos ter aqui neste Plano (como é o caso desta minha vida presente) é a mais intensa e a mais dorida, a mais sofrida e a mais angustiante, mas também a mais gratificante, levas um Doutoramento em lições de vida.
Pensa só...como preferes encarar a tua experiência, com sofrimento, ou com doutoramento?...a escolha é sempre Tua.
Grata sou eu por poder fazer parte desta tua iniciativa. Beijinho
MargaridaF
E eis que mais uma vez me surpreendes: doutoramento em lições de vida?! Apetece-me rir à gargalhada dos meus próprios dilemas e angústias, se tudo é assim tão simples....
EliminarMas não me iludo, se um doutoramento fosse fácil, sermos doutores era para todos, com as mesmas condições dadas a priori e todos atingiríamos a meta mais ou menos ao mesmo tempo...
Mas não, um doutoramento é trabalhoso (sofrido, portanto?)! E é uma arte em que nem todos são exímios.
A escolha a que te sei responder, é que decidi viver: contra tudo, contra todos, agarrada a uma esperança nem sei bem de quê, embora saiba que de algo melhor... Viver sendo única - porque o somos todos, mas porque sei que sou irrepetível e indispensável por onde quer que passe, ainda que seja para acentuar e realçar outros...
Um grande abraço de almas
Bonito texto :)
ResponderEliminarObrigada por teres vindo visitar-me, Catarina! Vai passando por cá e interagindo... bjs
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